segunda-feira, 9 de março de 2009

Jack e o "Sonho de Liberdade"

Partes de Jack

Jack segurava um cigarro de filtro vermelho no canto esquerdo de seus lábios rosados e carnudos. Sobre a mesa de madeira de lei, uma garrafa de Bourbon o acompanhava. Tocava um violão surrado enquanto cantava It Ain’t Me, Babe do Dylan. Já eu, encontrava-me de pé atirando dardos em direção ao alvo afixado à porta da sala. Ouvi sua gaita chorar e parei tudo. Sentei-me encarando seu rosto de anteontem e a barba da semana retrasada. É gostoso saber o que ele sente só de olhar seu rosto. Perguntei a Jack qual seria a maior aflição do momento. Disse-me que o trabalho pode mesmo dignificar um homem.......... Quando o ama. Era óbvio seu desdém pelo diploma de engenheiro civil. Acabara de se divorciar pela terceira vez e entregou-se a um mundo particular. Amava surfar e conhecer outras culturas. Amava ainda mais a música e as mulheres. Todas as mulheres de seu mundo velho e as do mundo novo que ainda nem conhecia. Perguntei o que o tocava de verdade, além das notas das milhares de partituras de suas bandas preferidas. E foi o que ouvi...
- Louco chegar nessa vida assim. Sem ter o que perder, sem ter o que esperar de alguém, além de mim mesmo. Na verdade, nem sei o que desejar. Consegui tudo o que um homem comum poderia querer. Um emprego bem conceituado, curso disputado, mulheres de todas as cores e sabores, conheci mil países e suas canções... Ainda sinto a falta de algo que está fora de órbita., não entendo. Because the Wind is high it blows my mind... Because... The Wind... Is hiiiiiighhhh. Aaaahhhhhhh, ahhhh. Love is all, Love is new. Love is all, Love is you. Because the Sky is blue it makes me cryyyy. Because the Sky is bluuuuuuueee.. Ahhhhh.... Ahhhhh....
- Essa música é triste e tão real. Vale a pena chorar pela simplicidade do ser. Por isso jamais poderia vê-lo como um homem comum.
- Espero que não seja esse o meu problema. Não ser comum...
- Virtude. Virtude... Por que não faz o que ama?
- Estou fazendo agora. Mas e daí? Continuo aqui. A Gen realmente me abalou a alma e agora não há nada que possa mudar isso. Tentei três vezes.
- E por que não ficou com ela?
- Hahaha eu quis. Abria a porta do carro, mandava flores, cantava, dedicava lugares e poesias... Ela nunca me quis. Parecia querer. Não largava o osso que tanto criticava.
- Criticava??
- Ela queria glamour, acho. Sei lá. Compreensão de coisas que não fazem o menor sentido pra mim.
- Tipo?
- Ah, tipo. Hmm. Discutíamos por algo e ela queria que assumisse o quão grave era minha resposta diante daquilo, mas nunca via nada demais. Tenho uma maneira simples de encarar a vida, sabe? Vejo gravidade na traição, na mentira, na violência, na maldade, no egoísmo... De resto é tudo bobagem. Não admito perder tempo de vida, que já é efêmera, criando mais problemas do que resolvendo. Enquanto que o mundo parece se ligar nessas amenidades a ponto de discuti-las em programas horrorosos de TV. Quando era garoto, minha mãe sempre estava preocupada se havia lavado as mãos antes das refeições, se escovava os dentes após, se havia lavado bem por detrás das orelhas ou esfregado os pés. Preocupava-se por mim enquanto eu só queria brincar no quintal dentro de carros velhos que já não funcionavam há anos. Achava que uma hora poderia consertá-los e, então, entraria num deles e sumiria daqui pelo mundo. Provavelmente pegaria o Del-Rey, pois tinha tocador de fitas k-7. Sempre fui muito apegado à música e às estradas. Não consegui arrumar nenhum dos carros, mas o desejo permaneceu.
- Entendo-te perfeitamente. Quando moleca via beleza em todas as coisas e nunca busquei muito por imperfeições. Aliás, sempre via beleza nestas. Minha avó dizia que eu era uma “rapariga” linda e que abalaria o coração dos mais belos moços. Perguntei se um dia seria linda como ela, mas ela negou. “Sou velha, minha filha, os cabelos já não têm viscosidade, o sorriso costuma rachar-me todo o rosto e a boca já está murcha e ressecada. Veja quantas pintas tenho pelo corpo e como minha pele está flácida. Você vai se tornar uma menina linda, com belos cabelos e um corpo divino”. Como se ela nunca tivesse sido aquela jovem da pele sedosa com enormes olhos azuis, boca carnuda e cabelos negros compridos e lisos, sem falar no corpo estonteante. Não entendia por que os idosos se achavam feios. Eles eram lindos. Com o tempo percebi que não só minha avó partilhava dessa mesma idéia, mas a maioria das pessoas. Digo maioria pra não generalizar, mas ainda não conheço nem cinco pessoas que concordem comigo. Fui incentivada a perceber essas “imperfeições” nos seres. Comparar grupos distintos com os padrões estéticos e suas beldades imortalizadas que circulam pelas mídias. Por esse lado ela teria razão, mas pra que esse comparativo? Que perda de tempo! Acabei inserida nesse grupo que desprezo por instantes. Quantas vezes me peguei comentando sobre a gordura extra de fulana, ou da magreza excessiva e por aí vai. Isso é bem ridículo. Que necessidade mais besta de diminuirmos os outros para ficarmos bem. Todos somos lindos. Todos temos uma história. Quantas pessoas consideradas “feias” tornam-se belas pelo que são com as outras e pela forma como amam o mundo? Reduzimo-nos à estética. Isso deveria ser um dos pecados capitais, por Deus. Realmente, quem vê cara, não vê coração. Não poderia entender certas coisas quando criança. Como isso era bom. Saber que o mundo era todo, todo lindo. E todos a minha volta eram lindos. Sem maldade. Quero ser ingênua, será que alguém permite?
- Di, você é demais! Deve ser assim pra sempre, só tenha cuidado com as pessoas. Encontre aquelas que vêem esse mundo com você. As vezes as pessoas são más, não porque querem, mas porque suas vidas as transformaram em algo ruim. Tudo aquilo que nos ensinam pode se voltar contra a gente um dia. E tudo o que sofremos nos modificam ainda mais. Veja o que aconteceu comigo! Quando fui crescendo tive que ceder a mais obrigações. Fiz o curso que meus pais quiseram, tomei todos os banhos que me pediram, casei, comprei uma linda casa, um carro do ano, tive um filho... E só conseguia sentir um enorme nada dentro de mim. Achei que o amor preencheria esse vazio. Como isso não aconteceu, acreditei que um dia encontraria tempo pra fazer tudo do meu jeito. Até encontrei, mas se coloco esse tempo ao lado dos amores também encontro mais obrigações. Preciso preocupar-me se meu hálito está bom para beijar uma mulher, passar desodorante e perfume para que aprecie meu cheiro, fazer a barba para não espetá-la, vigiar minhas palavras para não machucá-la, algumas vezes era preciso largar o cigarro ou a bebida pare demonstrar certa “dignidade“... Aí encontro-me num dilema: se seguir a vida do meu jeito, sozinho, posso sentir o vazio de não ter alguém pra compartilhar minhas experiências e entregar meu amor. Se procurar outro amor, provavelmente continuarei sem tentar a vida que sempre quis. Em todo caso ainda prefiro ficar sozinho agora. Só não queria a esperança de que um dia vai aparecer alguém que queira viver tudo isso comigo.
- Você viu “O Curioso Caso de Benjamin Button”?
- Não tenho ido ao cinema. O que me conta?
- Benjamin nasceu com 80 anos. Imagine um bebê todo enrugado cheio de cataratas, artrite, artrose... Enquanto todos a sua volta envelheciam, ele ficava cada vez mais novo. Quando tinha uns 8 anos, apaixonou-se por sua vizinha de uns 5, com apenas 11 anos tomou seu primeiro porre. Aos 17 foi trabalhar num navio e teve sua primeira relação sexual. Seu amor era uma criancinha e ele, um senhor. Viveu romances, participou da guerra, viajou por todo o mundo e continuou amando a mesma criança. Encontraram-se em torno dos 40, quando já tinham a aparência real daquela idade. Sua amada engravidou e ele sabia que não podia ser pai, pois caminhava na direção oposta. Teve que deixá-la. Sozinho, subiu em sua moto e foi parar em outros países. Trabalhou com todo o tipo de coisa. E quando estava ficando novo demais, voltou até sua amada. Tiveram seus últimos momentos de amor e depois ele morreu como um neném em seus braços. A vida dele valeu a pena. E ele tinha um amor com quem não podia ficar, não é? Vá fazer tudo o que sempre quis, Jack. Não se negue isso. Se o amor é assim tão importante na sua vida, ele aparecerá.
- Apareceu pra você?

- Ah, não sei. Tenho muitas dúvidas também. Amei muito o Breno, lembra? Mas a gente não tem e nunca teve muito em comum, com exceção das viagens, das festas, da música, da cama. Do resto, se eu via amarelo, ele dizia que era azul. Acho que as pessoas precisam ter mais afinidade pra dizer “é você”. Quantas vezes já disse concordar com algo só pra agradar seu cônjuge? Nos desfazemos de nós mesmos sempre que mentimos assim. Mentimos pra nós mesmos, pro outro, pro mundo. E uma hora a verdade vem nos cobrar esse “pecado”. Acabamos um relacionamento sem conhecer direito quem esteve ao nosso lado, sem saber pra onde vamos e por onde “recomeçar”. E, aposto, a maioria precisa recuperar tudo aquilo que fora reprimido. Estaca quase zero. Nunca mais farei isso. E devo dizer, amei algumas coisas e só. Nada além. Nunca por inteiro. O tempo veio chegando e elas deixaram de ser suficientes pra nos manter juntos. Pra que insistir em representar um personagem? Não existe tal adaptação. Você é quem é. E sempre será. Ponto. Enfim. Na real é o que vejo acontecendo com a maioria dos casais. Uma hora são obrigados a se divorciarem ou tornam-se apenas companheiros. Fazem um sexo de vez em quando, pulam a cerca. É quem você realmente é te cobrando que o seja. Sei lá. Estou só vivendo a vida. Tirando o máximo proveito dela. Nunca se sabe até quando estaremos aqui. Não quero morrer esperando um amor que nem tenho certeza se existe ou não. Seja o que ama, meu amigo. Não faça isso com você.
- Não mesmo.

Jack apagou o cigarro que havia acabado de acender, amassou todo o maço, jogou no lixo e foi até o banheiro sem dizer uma palavra. Ouvi o barulho da água batendo no chão durante 5 minutos. Fiquei pensando o que estava se passando na cabeça dele. Seria uma pira momentânea ou ele realmente estava mudando tudo bem ali na minha frente? A porta se abriu lentamente. O cheiro do sabonete e o calor da água chegaram ao meu olfato suavemente e, então, ele veio andando com um jeito sexy e superior, a barba fora feita e usava apenas um short xadrez com havaianas. Era definitivamente um dos coroas mais lindos que já vi. Estava com outro ar, outro olhar, outro cheiro, outra luz. E que luz!

- O que você está fazendo? - perguntei
- O que devia ter feito há 20 anos. Vou “consertar aqueles carros” e partir sem rumo nenhum. Gosto de não saber o que vem por aí. O desconhecido me deixa louco, quente, meu sangue ferve. É disso que preciso.
- E parou de fumar por isso?
- Se resolvi viver a vida que sempre quis vou precisar de mais tempo pra aproveitá-la.
- Gente, que tudo! Nunca esperaria uma mudança assim tão drástica bem diante de meus olhos. Você me inspira.
- Preciso te mostrar uma coisa, mas antes, tenho que adequar o figurino. Quero lançar um mistério. Posso vendar seus olhos?
- Adoro surpresas! Vá em frente, meu bem.
Com meus olhos já cobertos conduziu-me até seu closet.
- Queria pedir sua opinião, mas estragaria toda surpresa! Hahaha Estou brincando.Já acabei. Siga-me.
Saímos de casa e descemos pelo elevador. Ele ia me guiando com seu braço direito sobre meu ombro. Paramos. Jack desata a venda num susto enquanto diz:
- Saca só isso!
- Não creio!

Surpresa, cobri com as duas mãos a boca e senti meus olhos brilhando acompanhados de um leve arrepio. O filho da mãe já havia consertado um deles. O Del-Rey era agora um conversível tunado com cores quentes metalizadas. O verdadeiro possante.

- Meu emprego, enfim, serviu pra algo realmente produtivo. Gastei uma grana. Veja, tem GPS, DVD, o porta-malas foi adaptado e possui gavetas para minhas roupas... Veja isso! Quando deito as duas poltronas dianteiras e encaixo essa parte aqui, tenho uma cama! - sorriu, parecia um garotinho com o brinquedo de seus sonhos - estou partindo amanhã. Começarei pelo Centro-Oeste e depois não sei. Talvez Norte. Vou levar uma câmera e trazer mil vídeos pra você assistir comigo quando regressar. Topa?

- Se pudesse até iria contigo! Hahaha. Seu louco. Te amo muito. Esse é um daqueles dias em que cremos nos milagres. Um dia poderei fazer tudo aquilo que sempre sonhei também. Espero que esteja perto. Quero muito ter uma casa de frente pra uma praia linda. Quando precisar da poluição das megalópoles, pego um avião e pronto. Ou um carro também, quem sabe. Estou feliz por você. E tenho agora um coração muito mais em paz, acredite.

- Dorme comigo essa noite? No bom sentido, é claro. Queria passar a minha última noite aqui com alguém de luz e amor. E uma pitadinha de caos também. Minha maluquinha preferida!
Jack e eu subimos. Fomos até a cobertura. Alto, sem teto. Deitamos num sofá imenso abraçados olhando as estrelas e dormimos sabendo que aquela noite seria inesquecível.

sábado, 28 de fevereiro de 2009

Pedaços de Maria e o Dragão

Maria estava sentada na grama diante de mim. Resolvemos sair de casa para sentir um pouco do verde lá fora. Apagamos quase todas as luzes para realçar a lua cheia e todas as encantadoras estrelas do verão. Vinho, natureza e estórias. Quem decidiu falar foi seu coração. Ergueu a taça delicadamente até que beijasse seu lábio inferior, inclinou a cabeça para trás e sentiu prazer enquanto o cabernet descia por sua garganta; um prazer de alívio. Quando retornou a sua posição original, fitou-me nos olhos e começou a contar partes de si. Disse-me que, quando pequena, seu pai costumava assobiar Something in the Way enquanto a carregava no colo até a varanda. A cidade interiorana não era muito iluminada e também não havia muitos prédios por perto no fim dos anos 80 - este, aliás, destacou, passou despercebido por muitos moradores dali. Ele apontava as estrelas dizendo que, qualquer pedido feito de coração, seria nelas gravado e assim teria todas as noites para fortalecê-las com seus sonhos e amores alimentados entre sístoles e diástoles de uma alma tão pura “como o cheiro emanado pelo verde ali presente“. Em seguida, olhava-a com enormes olhos de avelã e jurava que os dela tinham o mesmo brilho de todas aquelas estrelas juntas. Maria, então, passou a fazer desenhos no céu e a sonhar com todo o amor do mundo. O amor que tinha por tudo e o que tinham por ela. Quando chegava a hora de dormir, sua mãe a colocava na cama e sempre contava uma história dessas de contos de fadas. Todas as noites acabava vivendo nesses mundos que invadiam seus sonhos e a proporcionavam uma alegria plena. Quando ficava triste sua mãe cantava uma mesma música: Não fique triste, pois o mundo é todo seu. Tudo é muito mais bonito que a Camélia que morreu - cantarolou. E lá estava Maria. Travada no colo da mamãe, chorando e sentindo-se uma das pessoas mais importantes do mundo.
- Que lindo isso, Merry! Algumas memórias não deviam ser apenas memórias. Podiam criar uma forma de reproduzir as imagens guardadas em nossa mente, como filmes.
- Lindo. Mas como tudo tem seu lado ruim...
Sem entender muito o que poderia dar errado nesse caso especificamente, continuou seu raciocínio revelando seus conflitos amorosos.
- Acabei tão rodeada de amor que só poderia ser esse o pilar da minha vida. Depois viriam as outras coisas. Boas. E ruins também. Um dia li num blog sobre esse amor dos contos de fadas e atinei pra algo que antes nunca havia importado pra mim - o esforço, os riscos, dragões, reis e seus servos... Todo o contexto que envolve um grande amor desses “e foram felizes para sempre”. Acho que me peguei nessa situação e só percebi agora. É mesmo preciso passar por tudo isso, afinal? Que ingênua! Sinto que acabei mudando tanto os meus desejos que nunca fortaleci um único.
- Mas como? Mudanças drásticas? Não há similaridade entre eles?
- Há e não há. O problema dos desejos... Sabe aquela música do Placebo, Protect me from what I want? A gente tem que ter cuidado com o que pede porque pode acabar acontecendo. - riu com um certo deboche bêbedo - Enquanto pedia para encontrar meu príncipe encantado, acabava por acreditar que tantos com quem estive o eram, que minha vez havia finalmente chegado, mas nunca houve nenhum dragão, nem maçã envenenada. Adivinhe! Errei de novo e de novo. Posso estar enganada mais uma vez. Por isso só vou pedir agora que aquietem meu peito e o encham de amor e ternura como sentia quando criança.
- Falta crença nesse mundo. Falta amor! Ao menos disso você está repleta. Não sei se é culpa do que desejou. Talvez do que esperou. Será que existe isso de encontrar uma alma gêmea mesmo? Alguém que aquiete tanto a interrogação da nossa mente, da nossa alma? Não sei se acredito muito. As pessoas sempre esperam algo da gente. E frustram-se quando não vêm. A diferença é a maneira de lidar ou o que e como esperam. Fico feliz que tenha tanta fé em você. Algo acontecerá. Você ainda faz pedido às estrelas?
- Agora é mais difícil. Mas ainda posso me deparar com todas elas. É só buscar. Atrás de prédios apáticos e mal arquitetados, árvores semi-nuas, asfaltos negros e suas sinalizações borradas, postes mal pintados com seus fios e mais fios de uma real “alta tensão“.
- Como seria melhor se esta não tivesse a letra “n”, não é? - ri.
- Ô! Isso, sim, traria muito mais amor - hehehe. Contudo, acredito, de alguma forma inexplicável, sem comprovações científicas ou emocionais, que estou perto do caminho certo. Se existe um. Talvez porque essa nova idéia esteja, no fim das contas, aproximando-me de alguém que sempre busquei no fundo: Maria.
- Ah, meu, bem. Como isso é louco, não? Conviver anos consigo mesma e perder-se no além. São tantos eu’s tentando se afirmar por aí. Também tenho esses surtos. Todos têm.
- Ah... Em muitos casos pode ser algo mais suave. Mas nesse é como se tivesse me afastado de mim buscando um amor perfeito em alguém e há tanto abismo aqui dentro que, por vezes, mal sei quem sou e o que quero de verdade. Descobri o quanto faz mal dizer não para meus desejos e vontades, mesmo que singelos. É como viver a vida de outra pessoa.
- Pior ainda quando se percebe que nem essa pessoa sabe viver a vida dela direito. Aí são dois se anulando. Praticamente uma mutilação viciosa. Segue até que nenhum, nem outro acredite mais numa melhora e aconteça o, agora, inevitável.
- E quantos “nãos”, quantas regras de etiqueta, sociais, lingüísticas - com ou sem trema? -, morais, trabalhistas, jurídicas, fiscais, rodoviárias... E essa agora de relacionamento!? Será que quando não sou legal sou ilegal? E pra quem? A quem isso tudo realmente importa? Prefiro acreditar que é pra nossa própria alma. Saber que quero um amor é fácil. Felicidade! Saúde! Tim-Tim! Todos sempre nos desejam no nosso aniversário - bem, alguns não, claro. Mas enfim... é o bem comum. O desejo universal da alma. Embora o vazio sempre nos acompanhe. Desde os mais junkies e depressivos a Dhalai Lhama. Tá no peito. Decidi me amar primeiro. E dizer muito mais “sim” pra mim do que para os outros.
- Não dizem que quem somos está em nossos atos, realizações e convicções?
- Acredito nisso. Ame-me ou deixe-me, como cantava Nina, e deixe me a sós.
Maria pegou Mickey, meu Beagle, abraçou-o por um tempo. Fiquei comovida com a dor que não me pertence, mas também é minha, pois me atingiu. Talvez todo mundo tenha um pouco da dor do outro. Sentimentos, afinal. Olhou-o com carinho e disse:
- Quando aparecer me dizendo ser aquele por quem espero, vou amar você, mas, acredite, vou me amar muito mais antes. E se houver ciúmes e inseguranças nisso será uma culpa somente sua e de mais ninguém. Quanto alguém precisa ceder pra provar o que sente? Tudo. Menos a si mesmo, viu? O meu amor estará nos pequenos atos que dedicarei a você. Nas músicas que dançarei pra você, nos mimos que te levarei, nos lugares belíssimos que me farão querer estar cada vez mais perto do seu cheiro, do seu mundo junto ao meu, nas horas em que passarei olhando seus olhos sem dizer uma única palavra, nos beijos que darei por todo o seu corpo, nos filmes que chorarei ao seu lado, na saudade que machucará sempre que não puder tocar você, nos abraços intermináveis, nos sonhos. E não em toda a minha vida fora de mim e vice-versa. Assim saberei que é você. Que me ama por quem sou, pelo que faço e também pelo que deixo de fazer. Quero o pouco e sincero. Nunca o muito e auto-anulável. Não me invente. Nem recrie. Seja você comigo. Serei eu com você. Mas nunca “nós como um só“. Nunca um só caminho, um só querer. E toda vez que deitar na rede de meu jardim olhando para o céu desenhando sua silhueta, sentindo todo o seu calor penetrando minha pele estarei amando você mais que nunca. E também tudo aquilo ao meu redor. E tudo, tudo será apenas amor de verdade.

Chorei. Acho que me sinto um pouco como ela. Foi incrível ver aquela cena materializada. Temos um poder absurdo de nos trucidar. Bem que podia ser só amor. Amor devia gerar amor e nada mais. Por que tudo é tão complicado? Espero que ela esteja certa. Que o melhor caminho seja realmente cuidar primeiro da gente. Tudo que me toca, definitivamente, faz parte de mim. Acabei acreditando que preciso fazer o mesmo. Não importa o quanto nos amemos e cuidemos. Sempre vamos esperar algo. De nós mesmos. De um amor. De um alguém. Mas pode ser menos. E leve. Como Maria sente por Mickey.
:)

XoXo Gossip Girl.

I know I don't wanna be any character of this movie. Would you?