sábado, 28 de fevereiro de 2009

Pedaços de Maria e o Dragão

Maria estava sentada na grama diante de mim. Resolvemos sair de casa para sentir um pouco do verde lá fora. Apagamos quase todas as luzes para realçar a lua cheia e todas as encantadoras estrelas do verão. Vinho, natureza e estórias. Quem decidiu falar foi seu coração. Ergueu a taça delicadamente até que beijasse seu lábio inferior, inclinou a cabeça para trás e sentiu prazer enquanto o cabernet descia por sua garganta; um prazer de alívio. Quando retornou a sua posição original, fitou-me nos olhos e começou a contar partes de si. Disse-me que, quando pequena, seu pai costumava assobiar Something in the Way enquanto a carregava no colo até a varanda. A cidade interiorana não era muito iluminada e também não havia muitos prédios por perto no fim dos anos 80 - este, aliás, destacou, passou despercebido por muitos moradores dali. Ele apontava as estrelas dizendo que, qualquer pedido feito de coração, seria nelas gravado e assim teria todas as noites para fortalecê-las com seus sonhos e amores alimentados entre sístoles e diástoles de uma alma tão pura “como o cheiro emanado pelo verde ali presente“. Em seguida, olhava-a com enormes olhos de avelã e jurava que os dela tinham o mesmo brilho de todas aquelas estrelas juntas. Maria, então, passou a fazer desenhos no céu e a sonhar com todo o amor do mundo. O amor que tinha por tudo e o que tinham por ela. Quando chegava a hora de dormir, sua mãe a colocava na cama e sempre contava uma história dessas de contos de fadas. Todas as noites acabava vivendo nesses mundos que invadiam seus sonhos e a proporcionavam uma alegria plena. Quando ficava triste sua mãe cantava uma mesma música: Não fique triste, pois o mundo é todo seu. Tudo é muito mais bonito que a Camélia que morreu - cantarolou. E lá estava Maria. Travada no colo da mamãe, chorando e sentindo-se uma das pessoas mais importantes do mundo.
- Que lindo isso, Merry! Algumas memórias não deviam ser apenas memórias. Podiam criar uma forma de reproduzir as imagens guardadas em nossa mente, como filmes.
- Lindo. Mas como tudo tem seu lado ruim...
Sem entender muito o que poderia dar errado nesse caso especificamente, continuou seu raciocínio revelando seus conflitos amorosos.
- Acabei tão rodeada de amor que só poderia ser esse o pilar da minha vida. Depois viriam as outras coisas. Boas. E ruins também. Um dia li num blog sobre esse amor dos contos de fadas e atinei pra algo que antes nunca havia importado pra mim - o esforço, os riscos, dragões, reis e seus servos... Todo o contexto que envolve um grande amor desses “e foram felizes para sempre”. Acho que me peguei nessa situação e só percebi agora. É mesmo preciso passar por tudo isso, afinal? Que ingênua! Sinto que acabei mudando tanto os meus desejos que nunca fortaleci um único.
- Mas como? Mudanças drásticas? Não há similaridade entre eles?
- Há e não há. O problema dos desejos... Sabe aquela música do Placebo, Protect me from what I want? A gente tem que ter cuidado com o que pede porque pode acabar acontecendo. - riu com um certo deboche bêbedo - Enquanto pedia para encontrar meu príncipe encantado, acabava por acreditar que tantos com quem estive o eram, que minha vez havia finalmente chegado, mas nunca houve nenhum dragão, nem maçã envenenada. Adivinhe! Errei de novo e de novo. Posso estar enganada mais uma vez. Por isso só vou pedir agora que aquietem meu peito e o encham de amor e ternura como sentia quando criança.
- Falta crença nesse mundo. Falta amor! Ao menos disso você está repleta. Não sei se é culpa do que desejou. Talvez do que esperou. Será que existe isso de encontrar uma alma gêmea mesmo? Alguém que aquiete tanto a interrogação da nossa mente, da nossa alma? Não sei se acredito muito. As pessoas sempre esperam algo da gente. E frustram-se quando não vêm. A diferença é a maneira de lidar ou o que e como esperam. Fico feliz que tenha tanta fé em você. Algo acontecerá. Você ainda faz pedido às estrelas?
- Agora é mais difícil. Mas ainda posso me deparar com todas elas. É só buscar. Atrás de prédios apáticos e mal arquitetados, árvores semi-nuas, asfaltos negros e suas sinalizações borradas, postes mal pintados com seus fios e mais fios de uma real “alta tensão“.
- Como seria melhor se esta não tivesse a letra “n”, não é? - ri.
- Ô! Isso, sim, traria muito mais amor - hehehe. Contudo, acredito, de alguma forma inexplicável, sem comprovações científicas ou emocionais, que estou perto do caminho certo. Se existe um. Talvez porque essa nova idéia esteja, no fim das contas, aproximando-me de alguém que sempre busquei no fundo: Maria.
- Ah, meu, bem. Como isso é louco, não? Conviver anos consigo mesma e perder-se no além. São tantos eu’s tentando se afirmar por aí. Também tenho esses surtos. Todos têm.
- Ah... Em muitos casos pode ser algo mais suave. Mas nesse é como se tivesse me afastado de mim buscando um amor perfeito em alguém e há tanto abismo aqui dentro que, por vezes, mal sei quem sou e o que quero de verdade. Descobri o quanto faz mal dizer não para meus desejos e vontades, mesmo que singelos. É como viver a vida de outra pessoa.
- Pior ainda quando se percebe que nem essa pessoa sabe viver a vida dela direito. Aí são dois se anulando. Praticamente uma mutilação viciosa. Segue até que nenhum, nem outro acredite mais numa melhora e aconteça o, agora, inevitável.
- E quantos “nãos”, quantas regras de etiqueta, sociais, lingüísticas - com ou sem trema? -, morais, trabalhistas, jurídicas, fiscais, rodoviárias... E essa agora de relacionamento!? Será que quando não sou legal sou ilegal? E pra quem? A quem isso tudo realmente importa? Prefiro acreditar que é pra nossa própria alma. Saber que quero um amor é fácil. Felicidade! Saúde! Tim-Tim! Todos sempre nos desejam no nosso aniversário - bem, alguns não, claro. Mas enfim... é o bem comum. O desejo universal da alma. Embora o vazio sempre nos acompanhe. Desde os mais junkies e depressivos a Dhalai Lhama. Tá no peito. Decidi me amar primeiro. E dizer muito mais “sim” pra mim do que para os outros.
- Não dizem que quem somos está em nossos atos, realizações e convicções?
- Acredito nisso. Ame-me ou deixe-me, como cantava Nina, e deixe me a sós.
Maria pegou Mickey, meu Beagle, abraçou-o por um tempo. Fiquei comovida com a dor que não me pertence, mas também é minha, pois me atingiu. Talvez todo mundo tenha um pouco da dor do outro. Sentimentos, afinal. Olhou-o com carinho e disse:
- Quando aparecer me dizendo ser aquele por quem espero, vou amar você, mas, acredite, vou me amar muito mais antes. E se houver ciúmes e inseguranças nisso será uma culpa somente sua e de mais ninguém. Quanto alguém precisa ceder pra provar o que sente? Tudo. Menos a si mesmo, viu? O meu amor estará nos pequenos atos que dedicarei a você. Nas músicas que dançarei pra você, nos mimos que te levarei, nos lugares belíssimos que me farão querer estar cada vez mais perto do seu cheiro, do seu mundo junto ao meu, nas horas em que passarei olhando seus olhos sem dizer uma única palavra, nos beijos que darei por todo o seu corpo, nos filmes que chorarei ao seu lado, na saudade que machucará sempre que não puder tocar você, nos abraços intermináveis, nos sonhos. E não em toda a minha vida fora de mim e vice-versa. Assim saberei que é você. Que me ama por quem sou, pelo que faço e também pelo que deixo de fazer. Quero o pouco e sincero. Nunca o muito e auto-anulável. Não me invente. Nem recrie. Seja você comigo. Serei eu com você. Mas nunca “nós como um só“. Nunca um só caminho, um só querer. E toda vez que deitar na rede de meu jardim olhando para o céu desenhando sua silhueta, sentindo todo o seu calor penetrando minha pele estarei amando você mais que nunca. E também tudo aquilo ao meu redor. E tudo, tudo será apenas amor de verdade.

Chorei. Acho que me sinto um pouco como ela. Foi incrível ver aquela cena materializada. Temos um poder absurdo de nos trucidar. Bem que podia ser só amor. Amor devia gerar amor e nada mais. Por que tudo é tão complicado? Espero que ela esteja certa. Que o melhor caminho seja realmente cuidar primeiro da gente. Tudo que me toca, definitivamente, faz parte de mim. Acabei acreditando que preciso fazer o mesmo. Não importa o quanto nos amemos e cuidemos. Sempre vamos esperar algo. De nós mesmos. De um amor. De um alguém. Mas pode ser menos. E leve. Como Maria sente por Mickey.
:)

XoXo Gossip Girl.

I know I don't wanna be any character of this movie. Would you?

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